Em busca de clientes nas ruas do Rio, donos de restaurante e de cozinha industrial competem com antigos vendedores

O mercado de venda irregular de refeições em espaços públicos do Rio, que cresce com a fiscalização frágil e a crise econômica, ganhou temperos picantes. Donos de restaurantes e de cozinhas industriais, agora, disputam espaço com a produção caseira e começam a despontar como os novos reis das quentinhas na cidade. Para incrementar seus negócios, os novos empreendedores distribuem panfletos, aceitam cartões e vale-refeição como forma de pagamento, oferecem serviço de delivery e contam até com plano fidelidade. Alguns desses empresários das ruas já contratam funcionários não só para cozinhar, mas para ficar nos pontos de venda e distribuir os produtos em motos e carros. Ingredientes que criaram uma guerra com estabelecimentos legalizados, food trucks e até com antigos vendedores de quentinhas.

A disputa é tão acirrada que em um trecho de apenas 600 metros da Rua Fonte da Saudade, entre a Avenida Epitácio Pessoa e a Praça General Alcio Souto, na Lagoa, há cinco concorrentes. E eles estão longe de serem os únicos do bairro: na Epitácio Pessoa, entre o Corte do Cantagalo e o Jardim de Alah, mais de 15 carros com a mala aberta expõem as marmitas na hora do almoço. A exemplo de camelôs, que, mesmo sem licença, conseguem lugares fixos em calçadas, cada vendedor de quentinhas tem espaço cativo em vagas do estacionamento Rio Rotativo, de segunda à sexta-feira, das 10h30m às 14h. Os preços são convidativos: alguns cobram R$ 10, com direito a um copo de guaraná natural e pagamento com cartão. Facilidades que informam em placas e cartazes para atrair a cliente

Dono de restaurante tem ponto em praça

Sob um guarda-sol instalado num local estratégico da Praça General Alcio Souto, na Fonte da Saudade, são oferecidas há dois meses quentinhas feitas no Tempero Tropical, acondicionadas em caixas de isopor. O restaurante fica perto dali, na Rua Professor Saldanha, no Jardim Botânico. O dono, o cearense Francisco de Assis Bandeira, há 20 anos no comércio, alega que precisou correr atrás do prejuízo.

"Colocavam isopor na porta do meu restaurante, a R$ 10, e os fregueses deixaram de comprar as minhas quentinhas. Eu vendia cerca de cem por dia, pelos preços normais do restaurante (o prato feito varia de R$ 13 a R$ 28). Mas só mantive os clientes de mesa, e meu faturamento diminuiu. Às vezes, ficava no sufoco para conseguir quitar o aluguel da loja, o IPTU. Tenho que pagar as contas", diz.

Na informalidade, Assis cobra R$ 10 pela refeição e pensa em criar outras filiais nas ruas. O funcionário Dalvan dos Santos Almeida, o Maranhão, que fica na praça com maquininha de cartão à disposição, recebe lotes de 40 refeições variadas todas incluem uma carne, arroz, feijão e espaguete. Quando acaba, mandam mais do restaurante conta Maranhão, enquanto atende um cliente que para um carro de empresa próximo ao guarda-sol.


Fonte: O Globo