Os jornais da semana passada abriram um grande espaço para destacar que em 2012

a maior empresa privada do Brasil, a Vale, lucrou 74% menos que em 2011. O lucro

da Petrobrás igualmente teve uma queda de 36%. No Grupo Gerdau a redução foi de

23%.

Os dados de 2011 já haviam trazido maus prenúncios. O lucro líquido das 209

empresas que estavam na Bolsa de Valores encolheu 23%. Na indústria o resultado foi

ainda mais grave.

 

Em todos os setores, porém, os salários subiram mais que a inflação. Nos últimos

seis anos, a sua participação na renda nacional subiu de 39% para 43%, enquanto a

participação dos ganhos das empresas caiu de 36% para 33%.

 

Vários fatores instigaram a elevação do custo do trabalho. Os fortes aumentos do

salário mínimo concedidos nos anos recentes pressionaram a base da pirâmide salarial

e elevaram os pisos das categorias profissionais e os salários próximos aos pisos. A

falta de mão de obra adicionou mais pressão. Segundo o Dieese, em 2012, 95% das

negociações redundaram em reajustes salariais superiores à inflação. Na indústria o

aumento foi de 5,8% em termos reais. Como a produtividade do trabalho caiu 0,8%, o

custo efetivo aumentou 6,6% - a maior alta em 11 anos!

 

A própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) constatou que os salários

no Brasil estão crescendo a um ritmo duas vezes maior do que a média mundial,

o que explica a forte expansão do consumo, propelida, adicionalmente, pelos

programas de transferência de renda do governo e pela acentuada elevação dos

benefícios negociados nos acordos e convenções coletivas, incluindo-se aqui os

abonos, participação nos lucros ou resultados, alimentação, transporte, cesta básica,

previdência privada, seguro saúde, etc.

 

É importante lembrar que sobre os salários e vários dos benefícios negociados

incidem pesadas contribuições previdenciárias e vários encargos sociais. No total

são mais de 100%. Isso eleva ainda mais a conta em tela. Esta é também aumentada

pelas decisões judiciais (sentenças, súmulas, precedentes normativos, etc.) e pelas

crescentes exigências no campo da saúde e segurança. Os estudos internacionais

indicam que os custos não salariais do Brasil são os mais altos do mundo. Tudo

isso coloca o custo do trabalho num patamar muito superior ao que é refletido

simplesmente pelos salários.

 

Esse quadro seria positivo se a produtividade do trabalho acompanhasse o aumento

do custo. Mas a produtividade do trabalho está estagnada há vários anos. Quando

se pergunta qual é a proporção do crescimento do PIB que é devida ao aumento da

produtividade, no caso do Brasil, isso não passa de 25%, enquanto na Coreia do Sul é

de 75% e na China, 93%!

 

Nessas condições, o aumento explosivo do custo do trabalho conspira contra a

competitividade das empresas brasileiras - que, não se pode esquecer, é agravada

pelos demais componentes do custo Brasil. Segundo estudos da Confederação

Nacional da Indústria (CNI), em 2012 os custos industriais tiveram a maior alta desde

2008, sendo o custo do trabalho o responsável pela maior parte desse aumento.

 

A conjugação desses fatores, é claro, vem comprometendo o lucro. Quando se reduz

o lucro, reduz-se o investimento, inibem-se as inovações e a capacidade de crescer e

gerar empregos de boa qualidade. Para os setores que podem transferir os aumentos

do custo para os preços a consequência é inflação. O Brasil está sofrendo dos dois

males: investimento decrescente e inflação crescente. A própria elevação dos preços

dos alimentos se deve, em grande parte, ao forte aumento do custo do trabalho nos

supermercados e outros revendedores - 3% reais.

 

Um quadro como esse exige ações bem articuladas de curto e longo prazo. Não

há a menor possibilidade de reverter a situação atual meramente com propaganda

e medidas tópicas. O Brasil precisa de uma liderança firme para implementar as

benditas reformas estruturais.

 

* José Pastore é professor de Relações do Trabalho da FEA-USP e membro da Academia Paulista de

Letras.

 

O ESTADO DE S. PAULO

 

Terça feira, 12 de março de 2013