Produtor cultural, funcionário público, ativista do movimento negro, ator de teatro, cinema e televisão, diretor, mestre de cerimônias, arte-educador e, agora, afrochef. Esta última – e mais recente atividade de Jorge Washington, 54, a chegar ao grande público – tem como vitrine o Culinária Musical. A união da boa música aos pratos da gastronomia popular tem conquistado um público fiel, que passou a ter o final de linha do bairro do Garcia como mais uma opção de lazer para as tardes de sábado na soterópolis.

O espaço – um dos redutos do mais genuíno samba na capital baiana, fruto do sonho de uma irmã de Jorge, Julinda Maria Araújo, que morreu em fevereiro de 2013 –   já é da família e administrado pelo sobrinho do ator, Everton Sanches. Além da boa localização, também conta com segurança e ambiente climatizado. Em uma conversa, os dois afinaram os anseios e partiram para a primeira edição que teve como carro-chefe o famoso Bacalhau Martelo.

Diverso por natureza, Jorge já sentiu a necessidade de imprimir sua marca no novo projeto e começou a incluir representantes de diversos ritmos.  No palco, artista e público brilham juntos e transformam o show em confraternização entre amigos, em que ambos cantam e dançam na mesma sintonia.

A interação é imediata, e essa troca de energia já foi experimentada, entre outros, por Lazzo Matumbi, Alexandre Leão, Roberto Mendes, Magary Lord, Carlos Barros, Célia França, Denise Correia, Dão, Firmino de Itapuã, Gerônimo, Mário Ulloa, Jack Elesbão, Lívia Natália, Nelson Maca... Uma fila de artistas espera para integrar o rol de atrações.

“A ideia é genial. Juntar a gastronomia, que é algo de que Jorge entende muito bem, à música e a outras expressões de arte. A cada semana, ele surpreende trazendo pratos da memória afetiva dele e da nossa a música. E é sempre um prazer e uma experiência ótima e cheia de surpresas. Artistas aparecem e interagem com a atração do dia, além das outras artes envolvidas”, conta a cantora e atriz Denise Correia, que já  participou  como atração principal por três vezes, tocando com sua banda Na Veia da Nega.

Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

Mesmo assim, Jorge chegou à conclusão de que as variadas expressões artísticas ainda  não estavam contempladas. Desde então, ampliando o leque de atrações, a iniciativa já abrigou até lançamento de livro, desfile de moda, performance de dança e intervenção poética. E, a partir de julho, a frequência que era quinzenal passou a ser semanal. “É que muitas pessoas reclamavam que só tinha quando não podiam ir, e os artistas ligavam querendo participar. Aí resolvi ampliar um pouco mais”.

Atualmente, após nove meses de existência, o projeto foi ganhando corpo e se consolida como um evento que movimenta a cena artística na capital, como o sarau poético-musical Vozes Negras –  que une poesia, música, discurso racial que relata o universo feminino –;  a festa Yemanjá é Black, que acontece a cada  2 de fevereiro; e o Dance o Baile do Seu Corpo, que reedita os bailes black da década de 80,  com a fusão entre o clássico e o moderno.

Todos os eventos foram  criados pelo ator do Bando de Teatro Olodum. “O encontro com Jorge é sempre essa coisa meio familiar, onde você chega, junta os amigos, os artistas se apresentam. É sempre um ambiente muito feliz. Ele é uma pessoa que sempre pensa em agregar e lançar novidades. O Culinária é isso”,  diz o cantor e compositor Dão Anderson, com quem ele divide o Dance o Baile do Seu Corpo.

A mil por hora

E como ele faz para conciliar o Culinária Musical  com os ensaios diários do Bando de Teatro Olodum, o trabalho no Hospital Octávio Mangabeira, as aulas de teatro  para idosos, e as tantas outras atividades que acumula? Sem contar o desempenho na função de pai de Carina, 5, que exige dedicação intensa ao longo do dia. “Não tenho tempo para sentir cansaço”, responde. E a rotina é mesmo árdua.

Da escolha do prato até a definição das atrações, tudo passa por ele. “Trabalhar com arte independente é difícil. O retorno financeiro é pouco e a gente tem que fazer quase tudo. Minha sorte é contar com o respaldo do meu nome no âmbito cultural e da militância, além dos amigos que me atendem quando chamo”.

Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

Depois de escolher o cardápio e obter confirmação dos artistas convidados, ele faz o texto postado nas redes sociais e enviado para sua rede de contatos. E assim vai reverberando sua atual investida. Após a divulgação, a compra dos ingredientes para a receita, que é preparada  nos intervalos das atividades diárias da quinta-feira. Por fim, na noite da sexta, parte para a prática, ainda em casa. “Dependendo do prato, boa parte do preparo faço em casa e deixo o restante para fazer lá, pouco antes de servir”.

E pensa que acabou? No sábado, logo pela manhã, confere se ainda tem que comprar algo, coloca panelas, vasilhas, avental – claro, de tecido africano assim como a toque blanche (touca utilizada por chefes) –  e demais utensílios no carro e segue para o final de linha do Garcia para deixar tudo pronto. Após abertura das portas, entre a entrega de um prato e outro, o anfitrião recepciona os visitantes, dança, limpa a mesa, conversa, se diverte e dá entrevista quando algum veículo quer verificar se a festa é tão boa como os comentários dos frequentadores que batem ponto no local desde as primeiras edições.

No final, tudo se encaixa no ritmo frenético da vida. “Faço a festa como se fosse para mim. Sentia falta de um local na cidade onde eu encontrasse a arte em todos os seus aspectos e ramificações com qualidade. Como atuo na área, conheço muita gente boa que não encontra acesso nos espaços de visibilidade. E, para melhorar tudo isso, ainda amo cozinhar. É uma terapia”.

Sem espaço para comer os pratos que sempre estiveram na  sua memória afetiva, ele  decidiu criar  o seu. ” São as comidas que lembram as reuniões em família, o encontro com os amigos, a vivência com a minha mãe. Enfim, criei um lugar com tudo isso e ainda tenho a oportunidade de partilhar com um público diferenciado que aparece por lá”. Não é raro ser abordado por alguém que vai em busca desse resgate que a comida faz na memória afetiva. Galinha ao molho pardo, moqueca de feijão, xinxim de bofe, moqueca de miraguaia. Sem contar as criações ou adaptações, como maxixada de carne seca, moqueca de carne seca com mamão verde, fígado com maxixe que podem surgir quando ele pensa em qual será a comida do dia. “É uma satisfação cozinhar e ter o retorno das pessoas que se sentem abraçadas quando comem algo que lembra um momento da infância ou alguém que foi  importante na vida. A comida tem essa força”.

Assídua nas tardes de sábado do Culinária Musical, a funcionária pública aposentada Marinalva dos Santos Freitas, 68, faz questão de divulgar os cards que Jorge divulga nas redes sociais. “As atrações musicais me atraíram primeiro. Ele faz uma mistura boa com poesia, dança, música, desfile. No entanto, não tem como provar o tempero de Jorge e não se render. Além disso, ele sabe receber”.

Com tempero e afeto

O tempero das mãos habilidosas de Jorge Washington já conta, há algum tempo, com o aval dos amigos mais próximos e dos participantes dos eventos promovidos pelo Bando de Teatro Olodum, como a Feijoada do Vila. No entanto, a dedicação pela cozinha chegou pelo interesse de brincar com a única bicicleta  dividida entre os nove irmãos (cinco homens e quatro mulheres).

Desde pequeno, Jorge já era o titular em receber as notas para ir à feira comprar os ingredientes. Aliada a essa função, a ‘malandragem’ de, em pleno domingo, resolver lavar os pratos, talheres e panelas e, de quebra, deixar a cozinha do jeito que dona Georgina Rodrigues da Silva, 80, gostava. “Arrumava até a casa. Isso tudo foi me dando vantagem de ficar mais tempo com a bicicleta, pois eram muitos irmãos para dividir um brinquedo só”.

Daí para pegar gosto foi fácil. Após a fase de compra dos materiais, ele foi paulatinamente  alcançando outros cargos e ocupando a função de cortar temperos, tratar as carnes e, finalmente,  aprender as formas e estratégias para deixar cada preparação mais saborosa. Seguindo a linha, e continuando a  caprichar na alquimia, a tendência do Culinária Musical é crescer.

E Jorge pensa grande. “Quero uma estrutura maior para abrigar mais pessoas e poder ampliar também o leque de atrações a cada edição. Desejo que esse evento vire referência”, diz o ator e produtor. “No entanto, sem perder o clima agradável e a qualidade da comida e das atrações que fazem as pessoas voltarem ”, complementa.

Palco e militância

Pautado sempre pela militância na causa negra, Jorge Washington começou a carreira como ator – comemora 35 anos este ano – , com o Grupo de Teatro do Calabar, que usava a arte como ferramenta de expressão política e cultural. Com formação pelo curso livre da Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde teve como professor e coordenador o diretor teatral Deolindo Checcucci. Em seguida, ingressou no Bando de Teatro Olodum, criado e dirigido por Chica Carelli e Márcio Meirelles, em sua fundação, em 1990, onde permanece e integra o colegiado. Também formado pelos atores Valdinéia Soriano, Cássia Vale e Fábio Santana, o colegiado coordena as ações da companhia negra de dramaturgia, que é comprometida com um teatro engajado e considerada a mais popular e antiga do teatro baiano.

Entre as montagens mais conhecidas de que participou estão Essa é a Nossa Praia, Cabaré da RRRaça, que foca a temática do racismo,  Relato de Uma Guerra que não Acabou, sobre a greve da PM baiana, em 2001, e o infantojuvenil Áfricas,  além de Bença, que destaca a importância do respeito aos mais velhos. No cinema,  integrou o elenco de Ó Paí, Ó!, e do espetáculo homônimo, que retratava o cotidiano dos moradores do Pelourinho. Esteve ainda no elenco  do longa  O Homem que não Dormia, dirigido por  Edgard Navarro, Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro, e da animação Orún Aiyê, dirigida por Jamile Coelho e Cíntia Maria, onde emprestou a voz à divindade da profecia Orunmilá, o senhor  da sabedoria.

 

Fonte: A Tarde