A crise escancarou as ineficiências de um setor inchado e levou companhias a investir mais em lojas próprias

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Há alguns meses, José Carlos Semenzato, fundador da SZMTO Holding de Franquias Multissetoriais, percebeu que a rentabilidade da rede de restaurantes L’Entrecôte de Paris, uma das estrelas do grupo, vinha caindo consideravelmente. A margem estava abaixo de 10%, bem longe do ideal de 18% ou 20%. A queda, na visão de Semenzato, era reflexo da diminuição do poder de consumo do brasileiro. De fato, a recessão econômica pesou sobre o setor de alimentação. De acordo com a Abrasel, 33% dos bares e restaurantes iniciaram 2017 operando no vermelho. “Era preciso criar uma estratégia para recuperar as margens”, diz Semenzato. No final do ano passado, ele propôs ao franqueado do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, um modelo de sociedade (em que ele fica com até 90% do negócio), deixando para trás a franquia.

Deu tão certo que o empresário pretende transformar outras seis unidades da rede, que equivalem a 30% do total, em lojas próprias. Para Semenzato, uma das principais vantagens é aumentar o poder de negociação com os fornecedores e reduzir os custos. Alguns insumos, como a batata, ingrediente que acompanha o único prato servido pela rede, um filé com molho especial, serão comprados a preço futuro, o que vai tirar uma parte do risco do negócio. Os royalties, que representam uma parte do faturamento, viraram puro lucro. Outra vantagem é perceber mais rapidamente o que não está funcionando e lançar novidades.

Além do L’Entrecôte de Paris, o empresário tem outras sete redes de franquias, e fechou 2017 com um faturamento de 1 bilhão de reais, cerca de 60% mais do que no ano anterior. Semenzato conseguiu isso com muita agressividade. Nos últimos dez anos, o mercado brasileiro de franquias cresceu mais de 280%. O faturamento passou de 25 bilhões de reais, no início da década passada, para 163 bilhões de reais, no ano passado, enquanto o número de lojas saltou de 60 000 unidades, em 2005, para 145 000, em 2017. Hoje, há 2 800 redes em operação, o triplo de dez anos atrás.

Contribuíram para esse crescimento empresas globais para lá de consolidadas, como a rede de sanduíches Subway. A maior parte dessas redes começava a selecionar franqueados sem nem mesmo testar o modelo de negócios com algumas lojas próprias, como mandam os manuais. Com o passar do tempo, e a chegada da crise, foi ficando claro que operar uma rede de franquias dá mais trabalho do que os neófitos imaginavam. “Ainda há poucas barreiras de entrada, e esse mercado atrai pessoas com pouco preparo ou pouco planejamento”, diz o consultor de franquias Marcelo Cherto.

A chegada da crise precipitou uma mudança que, para consultores e empresários do setor, era mais do que necessária: o aumento do percentual de lojas próprias no portfólio das companhias. “Dificilmente uma rede consegue crescer de forma sustentável, no médio e no longo prazo, só com franquias”, diz o consultor de varejo Adir Ribeiro, presidente da Praxis Business.

De acordo com um levantamento da Praxis Business feito com 92 redes em 2017, 83% das empresas do setor têm lojas próprias, que somam 6,3% do total das unidades. O ideal, segundo Ribeiro, é que esse percentual seja de 15% ou 20%. Os motivos que fazem as franqueadoras buscar novas formas de expansão são os mais variados. No caso de Semenzato, o aumento da rentabilidade atende, além do controle de custos e do teste de novos produtos, a um objetivo de longo prazo: ele planeja, dentro de alguns anos, abrir o capital de algumas de suas empresas ou vendê-las a outros investidores. Nos dois casos, o valor de mercado vai ser calculado com base no resultado operacional. “Sempre disse que poderia ter 5.000 franquias, mas nunca teria cinco lojas próprias”, afirma Semenzato. “Mas o amadurecimento profissional e as próprias mudanças no país, com a crise econômica, me fizeram mudar de ideia", diz.

A facilidade de testar novos produtos e de entender novos mercados consumidores é o motivo que levou a operação brasileira da Taco Bell, rede californiana de comida mexicana que chegou ao Brasil em meados de 2016, a optar somente por lojas próprias até agora. São 20 no estado de São Paulo, com previsão de abertura de outras cinco no Rio de Janeiro neste ano.

Também faz parte dos planos da rede, controlada no país pelo empresário Carlos Wizard Martins, lançar de 15 a 20 unidades franqueadas em São Paulo, mas só depois de finalizar a fase de testes dos produtos, fundamental para o sucesso do negócio. A operação com lojas próprias vem servindo para ajustar os sabores dos pratos de inspiração mexicana oferecidos pela rede ao paladar do brasileiro. Já foram feitas modificações no tempero de algumas comidas, que se tornaram menos picantes. Outros pratos passaram a levar mais molho, a pedido dos consumidores. “O feedback dos clientes, colhido diretamente por nosso pessoal, foi fundamental”, diz Michel Chaim, gerente-geral da Taco Bell. A rede fechou 2017 com um faturamento de cerca de 55 milhões de reais. A expectativa de crescimento para este ano é de 10% a 15%.

Fonte: Exame