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BRASÍLIA — Depois de um ano de bar cheio e faturamento alto em 2019, a pandemia trouxe dificuldades para as contas do Barziin Gastrobar, em Brasília, no ano passado. Luara Corrêa, uma das quatro sócias, precisou pegar dois empréstimos para manter o estabelecimento aberto. O primeiro foi o Pronampe, que ajudou a pagar as contas do início da pandemia. O segundo foi o Supera DF, programa de crédito emergencial lançado pelo governo do Distrito Federal, que serviu para manter as contas em dia até o fim de 2020.

Com a virada do ano, a situação ficou mais complicada. O Pronampe já não existia, e o recrudescimento da pandemia levou a novas medidas de fechamento de comércio, necessárias para reduzir a disseminação do vírus. As contas se avolumaram, inclusive com a necessidade de pagar os empréstimos tomados. Nessa situação, Luara, suas três sócias e o bar acabaram ficando com o nome sujo.

A empreendedora avisou ao gerente de seu banco que não teria condições de começar a pagar o empréstimo do Supera DF, o primeiro a vencer. A renegociação, no entanto, não foi feita de imediato pelo banco, mas apenas três meses depois, o que levou à negativação do nome.

— Eu morava em um apartamento de um valor mais alto. Tive que reduzir minha qualidade de vida. Não consegui nem alugar outro lugar porque meu nome estava sujo. Gerou uma bola de neve grande — conta Luara.

Situação ‘previsível’

A situação vivida por Luara, suas sócias e muitos outros pequenos empresários já aparece nas estatísticas oficiais. A taxa de inadimplência de micro, pequenas e médias empresas, que em 2020 estava em trajetória de queda, voltou a subir no início deste ano. De acordo com dados do Banco Central (BC), ela subiu de 2,12% em dezembro para 2,43% em março.

Para o economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) Rodolpho Tobler, a falta dos programas governamentais de apoio dificultou ainda mais a situação dos pequenos negócios neste início de ano:

— As empresas pequenas acabam tendo menos poder para agir, porque muitas delas não se recuperaram do que aconteceu no começo da pandemia e agora foram pegas de novo nessa necessidade de distanciamento social e funcionamento restrito.

A ausência do Pronampe, que concedeu R$ 37,5 bilhões em 2020, e do programa de redução de salários e jornada, o BEm, reeditado no fim de abril, deixou muitos empresários desamparados, ressalta o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci:

— A partir de janeiro você começou a ter que pagar o Pronampe. Como? Com porta fechada, com restrição, essa inadimplência era absolutamente previsível. É o Simples dobrado, o Pronampe que vence, a porta fechada ainda, o recrudescimento da pandemia, o fim do BEm, o 13º dobrado. Não precisa ser de Harvard ou Chicago para fazer essa conta.

Algumas medidas de apoio às pequenas empresas começaram a sair só em março, o que foi considerado tarde por empresários. O governo apostava que a retomada da atividade econômica este ano seria mais forte, o que dispensaria a adoção de programas de apoio.

As ações do governo começaram com o adiamento, por três meses, do início do pagamento dos empréstimos do Pronampe feitos em 2020. Ainda em março, a Receita Federal também adiou o pagamento de impostos de pequenas empresas e MEIs por três meses.

Já no fim de abril, o presidente Jair Bolsonaro assinou a medida provisória (MP) que permitia os acordos para redução de jornada e salário de funcionários, um dos programas mais bem-sucedidos de 2020. De acordo com os números mais recentes, 154 mil empresas adotaram a medida somente na primeira semana.

‘Houve um desajuste’

Alanna Marzola é administradora do bar e restaurante Ponte Aérea, que funciona em Salvador há 29 anos. Ela faz parte da segunda geração da família a gerenciar a empresa e explica que o faturamento está em cerca de 10% do que era antes da Covid-19. Apesar dos programas de apoio terem ajudado em 2020, o agravamento da pandemia neste início de 2021 dificultou a operação, e as dívidas aumentaram.

— Houve um desajuste. O tempo de urgência das empresas é diferente do tempo de ação das instituições. Estamos correndo contra o tempo porque, para nós, cada dia que passa é um dia a menos. Sabemos que, se continuar assim, vamos fechar as portas — diz Alanna.

Este ano, ainda falta o Pronampe sair do papel. Depois de mais de seis meses de tentativas de construção, a nova versão do programa, com juros mais altos e algumas mudanças estruturais, ainda não foi aprovada. Mesmo quando estiver disponível, as empresas já estarão endividadas e, em alguns casos, com o nome sujo, o que será um entrave na hora de solicitar os recursos.

Alanna ressalta que a demora nos programas de apoio afeta diretamente as contas da empresa. O ideal, segundo a administradora, é que programas como o BEm estivessem disponíveis assim que fosse necessário interromper as atividades presenciais. Sem isso, a dificuldade de pagar as contas aumenta junto com a de tomar mais crédito.

— Como deixa de pagar, você acaba ficando negativado. O banco vai ver que o índice de endividamento está alto e não vai te dar crédito. Quando você mais precisar, não vai ter — explica.

Fonte: O Globo
Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

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